Paris Jackson no podcast 'Trying Not to Die'
Paris Jackson participou do podcast Trying Not to Die, apresentado por Jack Osbourne, filho de Ozzy Osbourne, para uma conversa descontraída e pessoal sobre música, carreira e diferentes aspectos de sua vida. Ao longo da entrevista, ela falou sobre suas influências musicais e o novo trabalho, sua jornada de sobriedade e espiritualidade, a relação com a fama e os tabloides, além de comentar hobbies como fotografia e escalada e sua experiência como atriz. Paris também refletiu sobre amadurecimento, privacidade e a forma como hoje prefere preservar para si sua relação com o pai, Michael Jackson, sem sentir a obrigação de compartilhar publicamente esse vínculo.
▶️ Assista o vídeo no YouTube ou leia a transcrição da entrevista abaixo.
Guitarras, início na música e carreira
📄 Transcrição adaptada — deslize para ler ↓
E: Você comentou que vai passar na Norman’s Rare Guitars depois daqui. Está pensando em comprar alguma coisa?
P: Talvez. Eles têm guitarras vintage muito boas e estou pensando em pegar uma Martin.
E: Você coleciona guitarras?
P: Não diria que tenho uma coleção, mas tenho algumas guitarras antigas muito boas, principalmente Gibsons. Tenho uma acústica dos anos 1950 que encontrei em Malibu e outra de 1964 que comprei em Denver. Essa de 1964 é a minha garota. É com ela que costumo compor.
E: Há quanto tempo você toca?
P: Comecei a aprender violão por volta dos 13 ou 14 anos, principalmente pelo YouTube. Durante um tempo fiquei meio estagnada, porque já conhecia acordes suficientes para conseguir compor. Nos últimos anos comecei a explorar mais coisas, inclusive pestanas, que durante muito tempo eu me recusava a usar porque achava difíceis.
E: E quando você começou realmente a seguir a música profissionalmente?
P: Acho que no começo dos meus 20 anos. Durante bastante tempo tentei manter a música apenas como hobby, por razões meio óbvias e também porque não achava que fosse boa o suficiente. Só que eu amava tanto aquilo que chegou uma hora em que pensei: “Quer saber? Não importa. Vou fazer mesmo assim”.
E: Existe um medo especial quando você vem de uma família ligada à música e decide entrar no mesmo meio.
P: É engraçado porque nós realmente tendemos a continuar no entretenimento. Meus irmãos estão indo para o cinema e, de uma forma ou de outra, acabamos permanecendo nas artes. Não sei até que ponto é natureza ou criação, mas definitivamente existe alguma coisa ali.
Influências musicais, Radiohead e paixão por shows
📄 Transcrição adaptada — deslize para ler ↓
E: Quais foram suas maiores inspirações musicais?
P: Nos últimos cinco anos, Radiohead provavelmente foi uma das maiores, principalmente no meu primeiro álbum. Em termos de composição, gosto muito da escrita de Andy Hull e Conor Oberst. Também amo Margot & the Nuclear So and So’s. Já nas músicas novas, a sonoridade está indo mais para Marcy Playground, Pixies, Smashing Pumpkins e Nirvana.
E: Seu primeiro álbum tinha uma sonoridade um pouco mais próxima do folk.
P: Acho que tudo o que eu fizer sempre vai ter raízes folk. Não consigo escapar totalmente desse lado cantora-compositora porque normalmente escrevo no violão acústico. Só que agora estou experimentando outras coisas. Descobri que consigo usar vocais mais agressivos e pensei: “Vamos fazer aquele tipo de música que eu teria amado aos 14 ou 15 anos”. Talvez no álbum seguinte eu volte para algo mais folk.
E: Qual é o seu álbum favorito do Radiohead?
P: The Bends. In Rainbows vem logo depois.
E: Você conseguiu vê-los ao vivo?
P: Vi pela primeira vez no fim do ano passado. Quando anunciaram as datas europeias e não falaram dos Estados Unidos, pensei que talvez fosse a minha única oportunidade. Peguei um voo, cheguei no mesmo dia, fui até Oxford, visitei a exposição do Radiohead, passei um tempo com a minha tia e à noite fui ao show no O2. Fui sozinha e consegui chegar bem perto do palco.
E: Você realmente viajou sozinha só para assistir ao show?
P: Sim. Quando gosto tanto de uma banda, não quero ir com alguém que não seja tão fã quanto eu. Ou vou com alguém que ame aquilo tanto quanto eu ou prefiro viver a experiência sozinha.
P: Eu adoro a comunidade da música ao vivo. No show do Radiohead, por exemplo, eu e uma mulher ao meu lado estávamos chorando ao mesmo tempo e acabamos nos abraçando. Existem momentos muito bonitos entre pessoas que nem se conhecem, mas estão conectadas pela mesma música.
E: E você consegue filmar um show sem acabar assistindo tudo pela tela do celular?
P: Se você realmente gosta de música ao vivo, aprende a simplesmente levantar o telefone e torcer para estar enquadrando direito enquanto continua olhando para o palco. [risos] Também voltei a fotografar recentemente, então tenho levado minhas câmeras para vários shows.
Bandas novas e cena alternativa
📄 Transcrição adaptada — deslize para ler ↓
E: Eu admito que sou meio “boomer” quando se trata de música nova. Fico muito preso ao grunge dos anos 90.
P: Então vou mandar algumas bandas novas para você. É preciso procurar um pouco, mas existem bandas muito boas, e várias são locais ou de amigos meus.
P: Acho que você gostaria de Microwave. The Bobby Lees também são fenomenais. Tem Forth Wanderers, Nothing, que vai mais para shoegaze, Lilly, Teenage Wrist... existe muita coisa nova muito boa.
E: Pode mandar tudo. Preciso me atualizar.
P: Acho que você também gostaria de Sludge Mother. Se você gosta daquela sonoridade dos anos 90, ela tem uma coisa bem Alice in Chains.
Imagem pública, privilégio e ética de trabalho
📄 Transcrição adaptada — deslize para ler ↓
E: As pessoas obviamente têm uma ideia formada sobre você. O que você acha que elas costumam entender errado?
P: Provavelmente a maior parte das coisas. [risos] Ultimamente parei de olhar muito e isso tem me ajudado bastante. Estou muito mais feliz e quero continuar assim, porque ficar lendo essas coisas acaba tirando pequenos pedaços dessa felicidade.
E: Não leia os comentários.
P: Exatamente. Muita coisa que vi no passado simplesmente não era verdadeira. Uma coisa que me incomoda é essa ideia de “garota mimada”.
P: É claro que existiram aspectos muito privilegiados na minha criação, mas também havia muita coisa que precisava ser conquistada. Existia uma preocupação muito grande em desenvolver ética de trabalho.
P: Recentemente vi alguém dizendo que eu não precisava trabalhar. Mas eu preciso. De verdade. Sou como um tubarão: se parar de me mover, morro. Trabalhar, criar e ser produtiva me fazem feliz. Eu preciso disso para o meu bem-estar.
E: Você sentia que precisava ficar se explicando para as pessoas?
P: No passado, sim. Hoje não tanto.
E: O que mudou?
P: É exaustivo. Passei por um período depressivo bastante difícil durante alguns anos. No último ano tenho estado muito feliz e estou concentrando minha energia em preservar isso. Ficar explicando quem eu sou o tempo inteiro simplesmente drena essa energia.
P: Hoje é mais “o que você vê é o que você leva”. Se alguém interpretar de uma forma estranha, essa interpretação pertence à pessoa. Todo mundo tem direito às próprias opiniões, e o que os outros pensam de mim não é da minha conta.
Espiritualidade e o que a faz bem
📄 Transcrição adaptada — deslize para ler ↓
E: O podcast se chama Trying Not to Die porque todos nós temos nossas formas de continuar seguindo. Qual é a sua principal?
P: Expandir a minha vida espiritual. Sem dúvida. Tem sido uma das partes mais gratificantes da minha vida.
P: Minhas práticas espirituais, prestar serviço aos outros e a música são algumas das coisas que mais me fazem feliz. Também passo bastante tempo com meus amigos. Meu círculo ficou menor e hoje sou muito criteriosa sobre quem deixo entrar na minha vida.
P: Posso dizer que as pessoas que estão ao meu redor hoje têm muita integridade, são leais, engraçadas e extremamente carinhosas.
E: É importante ter uma boa tribo.
P: E continuo adotando mais animais. [risos]
E: Como essa espiritualidade funciona para você? Tem relação com igreja, com recuperação ou é algo diferente?
P: Grande parte tem raízes na sobriedade, mas estou sempre explorando coisas novas. Durante alguns anos me interessei bastante por tarô. Hoje não faço tanto, a não ser quando algum amigo pede. Também sou de Los Angeles, então, claro, já passei pelos cristais e Reiki. [risos]
P: Mas enxergo tudo isso como ferramentas. Estou sempre descobrindo novas ferramentas. Recentemente comecei a aprender mais sobre trabalho energético e a ler sobre taoismo.
P: Também comecei Living Buddha, Living Christ, de Thich Nhat Hanh, que explora paralelos entre tradições budistas e ensinamentos cristãos. Outro livro que quero ler é The Mustard Seed, de Osho.
P: No fim das contas, acredito que minha vida espiritual é algo entre mim e aquilo que considero um poder superior. Só gosto de continuar encontrando diferentes maneiras de explorar isso.
Recuperação, sobriedade e dependência
📄 Transcrição adaptada — deslize para ler ↓
E: Podemos falar um pouco sobre a sua jornada de recuperação? Você passou por tratamento ainda muito jovem, certo?
P: Sim. Passei por tratamento algumas vezes, tanto antes quanto depois de ficar sóbria. Também participei de instituições e programas com workshops terapêuticos intensivos, como o Hoffman Institute.
E: Ouço coisas ótimas sobre o Hoffman Institute.
P: Foi uma experiência realmente transformadora. Gosto muito de terapia e já participei de vários programas intensivos desse tipo.
P: Não quero entrar muito nos detalhes do que aconteceu, mas, quando consegui deixar algumas substâncias para trás, percebi que o álcool também era um problema para mim. Às vezes você larga uma coisa e simplesmente substitui por outra.
P: O que mais me incomodava era perceber como meu comportamento podia mudar. Fui criada para ser gentil e para prestar atenção na maneira como trato as pessoas. Durante muito tempo vivi com muita culpa porque sabia que tinha valores, mas havia momentos em que meu comportamento ficava completamente distante deles.
E: O que você acha que é dependência?
P: Quando falamos de substâncias, acredito que exista um componente físico. Para algumas pessoas, depois que começam, simplesmente não conseguem parar.
P: Mas também acho que mesmo pessoas que não têm problemas com substâncias podem desenvolver relações compulsivas com outras coisas. Para mim, existe algum tipo de vazio por trás disso. E acho que uma vida espiritual pode ajudar a lidar com esse vazio de uma maneira diferente.
E: Você consegue olhar para a infância e identificar sinais de que já existia alguma tendência compulsiva?
P: Sim. Havia vários sinais de que eu me relacionava com as coisas de maneira diferente das pessoas ao meu redor. Desde muito nova existia essa energia de ficar procurando alguma coisa fora de mim.
P: Isso também aconteceu nas minhas relações com pessoas. Uma das coisas mais importantes que estou aprendendo é como ter uma relação saudável comigo mesma e como não transformar coisas ou pessoas em relações de consumo emocional. É um trabalho diário, mas tem sido extremamente gratificante.
E: E você acabou de completar seis anos de sobriedade?
P: Sim. Em 7 de janeiro.
E: Parabéns.
Limites e a necessidade de agradar os outros
📄 Transcrição adaptada — deslize para ler ↓
E: Como você está hoje em relação a estabelecer limites?
P: Fiquei muito melhor nisso. Limites são importantes.
E: Eu ainda tenho dificuldade, principalmente por essa necessidade de agradar as pessoas. Minha reação costuma ser dizer “sim” para tudo.
P: Essa necessidade de agradar ficou muito mais fácil para mim depois que mudei a forma como a enxergava.
P: Um dos professores do Hoffman Institute dizia que um milagre pode ser simplesmente uma mudança de perspectiva. Acho que isso acontece bastante durante a recuperação e quando começamos a trabalhar em nós mesmos.
P: Eu resistia muito a abandonar o comportamento de agradar todo mundo porque enxergava aquilo quase como uma forma de sacrifício: “Estou fazendo isso pelos outros”.
P: Quando percebi que, na verdade, aquilo também podia ser uma forma de desonestidade — porque eu dizia “sim” quando realmente queria dizer “não” — tudo mudou. Eu pensei: “Não quero ser desonesta”. A partir daí ficou muito mais fácil começar a me afastar desse comportamento.
E: Um amigo meu sugeriu que eu passasse um tempo dizendo “não” automaticamente antes de aceitar qualquer convite.
P: O oposto de Sim Senhor, do Jim Carrey. [risos] Mas é uma prática boa.
E: Você acha que dependência é necessariamente uma resposta ao trauma?
P: Não sei. Conheço muitas pessoas com problemas de dependência que também carregam traumas complexos, inclusive eu. Mas também conheci pessoas que não têm histórias particularmente extremas e, ainda assim, chegaram ao mesmo lugar.
P: Acho que, quando alguém ainda não está pronto para mudar, a família não consegue simplesmente fazer a pessoa mudar. É algo que precisa partir dela.
Novos singles e processo criativo
📄 Transcrição adaptada — deslize para ler ↓
E: Quero voltar à música. Zombies in Love já saiu e você também lançou Teenage Drama. E o álbum?
P: Ainda é segredo. Estamos acertando os últimos detalhes.
E: Dá para dizer quando ele chega?
P: Ainda não tenho permissão para falar. Mas não deve demorar tanto.
E: Qual é a parte mais desconfortável de lançar sua própria música?
P: A parte burocrática e empresarial. Não gosto de lidar com contratos, detalhes e toda essa parte. Quero fazer arte e colocar a arte no mundo.
E: E qual é a melhor parte?
P: É como dar à luz e depois deixar aquilo livre. Depois disso posso começar a trabalhar na próxima coisa.
E: Então você não fica muito tempo analisando como o trabalho foi recebido?
P: Não. Ele vai fazer o que tiver que fazer. É como um passarinho: você solta e ele vai voar ou não vai. De qualquer forma, vou continuar fazendo arte porque amo fazer isso.
Fotografia e escalada
📄 Transcrição adaptada — deslize para ler ↓
E: Além de música e atuação, você também trabalha como modelo. O que mais gosta de fazer?
P: Fotografia, mas considero mais um hobby. Fiquei uns seis anos sem conseguir acessar minha conta de fotografia no Instagram porque esqueci tanto a senha quanto o e-mail associado a ela. Só consegui recuperar recentemente.
E: E escalada? Acho que foi assim que nos conhecemos.
P: Sim. É outro hobby que amo. Comecei em 2022 por influência de um amigo em comum.
E: Já fez grandes viagens de escalada?
P: Nada muito extremo. Sou uma escaladora bebê. [risos] Já escalei ao ar livre, mas descobri que gosto muito de técnicas que dependem mais de posicionamento do corpo do que de força dos dedos.
P: A escalada ao ar livre na Califórnia também é muito mais difícil do que parece. Foi bastante humilhante passar do top rope para a escalada guiada e depois sair da academia para a rocha. Minha graduação caiu bastante.
E: Mas, no fim, o mais importante é perguntar: você se divertiu?
P: Exatamente.
Reinvenções e retorno de Saturno
📄 Transcrição adaptada — deslize para ler ↓
E: Você sente que teve algum grande processo de amadurecimento?
P: Tive vários.
P: É engraçado porque, olhando para o meu mapa astral, existe tanta coisa acontecendo na primeira parte da minha vida que meu retorno de Saturno acaba parecendo quase sem graça. [risos]
P: Normalmente, entre os 27 e 30 anos, muita gente passa por grandes mudanças: divórcio, maternidade, mudança de religião, transformações de identidade. Minha vida já vem fazendo isso há mais de vinte anos.
P: Sinto que tive vários nascimentos e renascimentos. Em diferentes fases da minha vida, me transformei praticamente em pessoas completamente diferentes.
E: E você está bem com isso?
P: Completamente. Melhor fazer tudo agora para poder ficar um pouco mais tranquila quando estiver mais velha. [risos]
Cinema, RZA e “One Spoon of Chocolate”
📄 Transcrição adaptada — deslize para ler ↓
E: Vamos falar de One Spoon of Chocolate. Como surgiu o filme? Você já conhecia RZA?
P: Não pessoalmente. Mas ele é incrível. Muito legal e muito divertido de trabalhar.
P: O set inteiro foi muito divertido. Inclusive fiz uma amizade que acho que vou levar para a vida. Eu e Emyri Crutchfield, que também interpreta um interesse amoroso no filme, ficamos muito próximas. Ela mora relativamente perto de mim e continuamos nos vendo.
P: Nós rimos muito durante as filmagens, e isso é muito importante para mim. A vida já pode ser séria demais, então você precisa conseguir se divertir.
E: O filme tem elementos que talvez surpreendam algumas pessoas num projeto dirigido pelo RZA.
P: Não sei se surpreende tanto assim. [risos] Estamos falando de Wu-Tang. Existe toda aquela influência de kung fu, luta e cultura cinematográfica. Acho que combina bastante com ele.
P: Ele também é um grande fã de Quentin Tarantino e colocou pequenos detalhes no filme que remetem a esse universo.
E: Você pretende atuar mais?
P: Talvez. Depende muito do papel e do quanto eu me sentir apaixonada pelo projeto. Porque, neste momento, se eu puder preencher cada segundo disponível com música, é isso que quero fazer.
Redes sociais, tabloides e boatos
📄 Transcrição adaptada — deslize para ler ↓
E: Você é bastante ativa nas redes sociais.
P: Principalmente no Instagram. Quase não mexo nas outras plataformas.
E: O que você gosta nas redes sociais? Gosta de ter uma plataforma própria?
P: Acho que existem algumas vantagens, principalmente a possibilidade de se expressar e falar diretamente com as pessoas.
P: Ao mesmo tempo, existe uma linha perigosa entre expressão e estar constantemente “performando” uma versão de si mesma. Quando começa a parecer uma atuação permanente, aquilo deixa de me parecer honesto.
P: Mas gosto de conseguir conversar diretamente com amigos e pessoas interessadas na minha música. E também é útil quando aparece alguma informação completamente errada na mídia e sinto que preciso esclarecer alguma coisa. Posso simplesmente falar por mim mesma.
E: Os tabloides realmente inventam coisas absurdas.
P: Muito. Tenho um padrinho que brincava dizendo que, nos anos 2000, a imprensa já tinha anunciado a morte dele várias vezes. [risos]
P: Quando eu estava no ensino médio, segundo os tabloides eu também já tinha passado por todo tipo de acontecimento imaginário. Qualquer garoto que estivesse perto de mim virava imediatamente algum “homem misterioso”.
P: Houve até situações em que pegaram uma fotografia minha ainda muito jovem e transformaram uma dobra da roupa em uma história completamente inventada. É surreal pensar nas coisas que adultos escreviam sobre meninas que ainda eram crianças.
E: Isso aconteceu com muitas jovens famosas. Mary-Kate e Ashley Olsen, Britney Spears e várias outras foram tratadas de uma maneira muito problemática pela mídia.
P: Tenho muitos sentimentos sobre isso. Eram literalmente crianças.
Escola, homeschooling e educação
📄 Transcrição adaptada — deslize para ler ↓
E: Quando criança, você teve algum momento em que percebeu: “Espera, a minha vida não é igual à vida das outras crianças”?
P: Eu nem tinha amigos de escola durante boa parte da infância. Estudei em casa até aproximadamente o sexto ano e só entrei numa escola tradicional no sétimo.
E: Foi um choque sair do ensino em casa e entrar numa sala de aula?
P: Foi. E sétimo ano já é uma fase difícil por si só. Quando você chega sem muita experiência de interação com pessoas da mesma idade, o processo de adaptação fica ainda mais complicado.
P: Eu também estava acostumada desde pequena com situações que não eram normais para outras pessoas, como olhar pela janela de um hotel e encontrar uma multidão do lado de fora. Não lembro de ter existido um momento específico em que pensei: “Nossa, minha vida é completamente diferente”. Acho que fui entendendo isso gradualmente.
E: Você preferia estudar em casa ou frequentar uma escola?
P: Existem vantagens e desvantagens nos dois modelos. Acho que dá para educar uma criança em casa e, ao mesmo tempo, garantir que ela tenha convivência suficiente com outras crianças, coisa que talvez tenha faltado para mim.
P: Academicamente, estudar em casa foi muito positivo. Sou grata pela educação que recebi e por ter tido professores trabalhando comigo individualmente, principalmente porque tinha dificuldade com matemática e outras matérias mais analíticas.
P: Também tive aulas de história que não tentavam suavizar tanto as partes difíceis. Dependendo do lugar dos Estados Unidos onde você estuda, os próprios livros podem contar versões bastante diferentes da história.
P: O principal lado negativo foi social. Eu sabia conversar com adultos porque estava cercada por eles, inclusive amigos do meu pai, mas não sabia muito bem interagir com pessoas da minha idade.
“Legado”, espiritualidade e o que quer deixar
📄 Transcrição adaptada — deslize para ler ↓
E: Você pensa no seu próprio legado e em como gostaria de deixar este mundo?
P: Odeio a palavra “legado”.
E: Então vamos reformular. Você pensa no que gostaria de deixar nas pessoas?
P: Sim. Na minha cabeça, reformulei a palavra “legado”. Para mim, é mais sobre a sensação que você deixa no coração das pessoas.
P: Ultimamente gosto muito da palavra “lembrete”. Quero ser um lembrete do que é possível quando uma pessoa cuida de si mesma, cuida de outras pessoas, se coloca a serviço e continua trabalhando na própria recuperação.
P: Também tenho pensado muito nessa ideia de nossa essência verdadeira, por baixo de todos os rótulos que acumulamos.
P: Ram Dass fala sobre a diferença entre viver como vítima e viver como criador. Nessa visão, enquanto estamos completamente identificados com todos os rótulos que carregamos — profissão, história, gostos, erros — permanecemos presos a uma versão limitada de nós mesmos. Quando retiramos esses rótulos, chegamos mais perto da essência.
P: Tenho encontrado ideias parecidas em tradições completamente diferentes. Essa noção de que existe alguma coisa mais fundamental por baixo de todos esses papéis aparece de várias formas.
P: Gostaria de conseguir lembrar às pessoas próximas de mim quem elas são além de todos esses rótulos.
E: E experiências difíceis também podem se transformar em algo que ajuda outras pessoas.
P: Com certeza. Hoje consigo enxergar várias das dificuldades que atravessei quase como uma espécie de superpoder. Quando você passa pelo processo de curar alguma coisa e transformá-la, sua experiência pode virar uma ferramenta para ajudar outra pessoa.
P: Às vezes, quanto maior foi o sofrimento, mais potente pode ser aquilo que você consegue oferecer a alguém que está atravessando algo semelhante.
Privacidade e sua relação com Michael Jackson
📄 Transcrição adaptada — deslize para ler ↓
E: Quando se tornou adulta, você teve dificuldade para decidir quanto da sua vida queria tornar público e quanto queria manter privado?
P: Sim. Durante muito tempo existiu uma parte de mim que achava que precisava compartilhar tudo, como se de alguma forma eu devesse isso às pessoas. Acho que essa foi uma mensagem que recebi durante muito tempo: “Você nos deve isso”.
P: Isso mudou drasticamente nos últimos anos. Hoje não acho que nenhum de nós deva esse tipo de acesso a ninguém.
P: Também não quero que a maneira como me expresso pareça performática.
P: Um exemplo muito claro é essa expectativa de que eu tenha que entrar nas redes sociais no aniversário do meu pai, no aniversário de sua morte ou no Dia dos Pais e fazer uma publicação.
P: Parece que existe a expectativa de que eu demonstre amor da mesma maneira que um fã demonstraria. Mas eu tive uma relação pessoal com ele, não uma relação parassocial.
P: Estou aprendendo que posso ter essa relação de forma privada. E hoje sinto que estou num lugar muito bonito em relação ao meu pai. É uma relação que é minha. Eu amo isso e não preciso compartilhar com ninguém.
P: Existe muita liberdade em perceber isso.
P: Não quero copiar a maneira como alguém que não o conheceu demonstra amor por ele, porque eu o conheci. Ele era o meu melhor amigo.
E: Entendo perfeitamente. Quando meu pai morreu, percebi que, entre milhões de pessoas que o conheceram ou admiraram, existiam pouquíssimas pessoas que tiveram exatamente a relação que eu tive com ele: eu e meus irmãos.
P: É exatamente isso. Tenho alguns amigos que estão numa situação parecida, filhos de artistas que também perderam os pais. É bom ter pessoas com quem você pode simplesmente trocar um olhar e saber que elas entendem certas coisas.
E: E existe uma gratidão enorme em pensar: ele significou algo para milhões de pessoas, mas, para mim, era meu pai.
P: E isso é seu. Você não deve isso a ninguém. Você pode simplesmente guardar, proteger e pensar: “Isso aqui é meu”.
Arrependimentos, reinvenção e medos
📄 Transcrição adaptada — deslize para ler ↓
E: Você tem algum arrependimento?
P: Não.
E: Nenhum “eu deveria ter feito diferente”?
P: Não.
E: É um ótimo lugar para estar.
P: Percebi isso recentemente. No último ano realmente parei para pensar nessa pergunta e cheguei à conclusão de que não acho que me arrependa de nada.
P: Claro que existem coisas do passado que me dão vergonha. Às vezes vejo alguma coisa que falei numa entrevista e penso: “Meu Deus, que idiota”. [risos]
P: Mas hoje acredito muito mais nessa ideia de que existe um tempo para as coisas. Algumas experiências talvez tenham precisado acontecer exatamente como aconteceram. Se eu ainda não entendo a razão, talvez entenda depois.
E: Qual foi a sua fase mais vergonhosa?
P: Foram várias. [risos] Estou sempre aprendendo e me reinventando, e normalmente sou bastante barulhenta quando faço isso.
P: Então tenho momentos constrangedores do quinto e sexto ano, do sétimo e oitavo, do ensino médio, logo depois da escola, do começo da sobriedade...
P: Como mudei de identidade tantas vezes, acho que cada transformação veio acompanhada de uma fase meio desajeitada.
E: E quais são seus medos hoje?
P: Durante muito tempo tive medos relacionados a não ser boa o suficiente, ser abandonada ou não fazer as coisas da maneira certa.
P: Ultimamente tenho uma prática nova: escrevo sobre o medo. Pergunto de onde ele vem, como eu mesma contribuo para torná-lo real e como enxergaria aquela situação se incluísse minha espiritualidade e uma perspectiva mais elevada.
P: Normalmente, no final, chego à mesma resposta: entrega.
P: Acho que talvez o antídoto para o medo seja justamente se entregar e aceitar que algumas coisas serão o que tiverem que ser.
E: Paris, muito obrigado pela conversa. Estou ansioso pelo álbum e gostei muito dos singles.
P: Obrigada.

COMENTAR